Maria

Maria
20:11

Poesia publicada no jornal Fronteira-Herval. Em 1983. Triste palhaço

Poesia publicada no jornal Fronteira-Herval. Em 1983.



                             Triste palhaço
   Tão triste, não te reconheço.
   Porque estás assim?
   Escondes teu rosto numa velha máscara.
   ocultas tua alma em rasgadas janelas.
   Desfilas desengonçado no bloco feliz.
   Palhaço, hoje sim te assumes no teu nada.
   Substantivo comum na massa toda.
   És um palhaço e isso te basta, tens uma banda,
   mas nem dela precisavas, pois coração de palhaço bate forte,
   dança, requebra, ri até da sorte.
   Mas quando acaba a folia a dor aumenta.
   Nem no bloco de sujos tu desfilas mais e nem te encobrem os          olhos, rasgadas janelas.
   Que pena me dá de ti, alma cansada.
   Se ainda tivesse lágrimas, contigo choraria este momento triste do    acordar.
   Talvez nunca mais eu dormiria, para não ser palhaço.
   Para não mais sonhar.



19:54

Do baú da memória, um conto real.

                      Do baú da memória, um conto real.


      Ele era um a mais a ver todos os dias a partida e a chegada dos         ônibus.

      Pedia trocados, oferecia serviços que poucos aceitavam, sua             aparência não o beneficiava para certos préstimos.
      Coitado ele não era, louco também não, embora alguém o                 chamasse assim. Talvez fosse carente, nunca soube onde                   morava. 
      Sei que dizia palavras soltas, frases engraçadas ou rebeladas,           mas falava. Joãozinho tinha voz.
      Alguns jogavam à ele ofensas, acho que de brinquedo.
      "Joãozinho ladrão", será que roubava? Não sei também de que         vivia.
      Mas num belo entardecer, Joãozinho passava pela rua e viu             senhoras, moças estudantes tomando chimarrão na frente de um       alojamento.
      - Joãozinho disse: Dizem que o Joãozinho é louco, é ladrão,             mas Joãozinho vai roubar o coração das moças.
      Aquela frase marcou sua vida. mesmo sem saber ele estava               entrando para a história daquele grupo.
      Porque muitos roubam, alguns roubam muito, outros nem tanto,       mas até hoje só quem  ouvi falar em roubar corações fostes tu
      Joãozinho.
      Passado um bom tempo, alguém falou:
      Joãozinho louco morreu!
      -Respondi:  Aquele que roubava o coração das moças.