Poesia publicada no jornal Fronteira-Herval. Em 1983.
Um coração cigano que lê a sorte nos teus olhos.
Maria
Do baú da memória, um conto real.
Ele era um a mais a ver todos os dias a partida e a chegada dos ônibus.
Pedia trocados, oferecia serviços que poucos aceitavam, sua aparência não o beneficiava para certos préstimos.
Coitado ele não era, louco também não, embora alguém o chamasse assim. Talvez fosse carente, nunca soube onde morava.
Sei que dizia palavras soltas, frases engraçadas ou rebeladas, mas falava. Joãozinho tinha voz.
Alguns jogavam à ele ofensas, acho que de brinquedo.
"Joãozinho ladrão", será que roubava? Não sei também de que vivia.
Mas num belo entardecer, Joãozinho passava pela rua e viu senhoras, moças estudantes tomando chimarrão na frente de um alojamento.
- Joãozinho disse: Dizem que o Joãozinho é louco, é ladrão, mas Joãozinho vai roubar o coração das moças.
Aquela frase marcou sua vida. mesmo sem saber ele estava entrando para a história daquele grupo.
Porque muitos roubam, alguns roubam muito, outros nem tanto, mas até hoje só quem ouvi falar em roubar corações fostes tu
Joãozinho.
Passado um bom tempo, alguém falou:
Joãozinho louco morreu!
-Respondi: Aquele que roubava o coração das moças.

